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quarta-feira, 9 de maio de 2012


quarta-feira, 9 de maio de 2012 7:00

Bico é regra entre guardas-civis da região

Rafael Ribeiro 
Do Diário do Grande ABC

Noventa porcento dos 2.482 guardas civis municipais da região exercem atividade extraoficial, o chamado bico, fora do expediente de trabalho. A estimativa é dos sindicatos dos funcionários públicos das seis cidades que contam com corporação. As próprias prefeituras reconhecem que a maioria dos GCMs atua como segurança, nos períodos de folga.
Na segunda-feira, guarda-civil de São Caetano morreu baleado após troca de tiros com bandidos na Zona Sul da Capital, durante tentativa de assalto a um caminhão que transportava eletrodomésticos. Alberto Rigobello fazia escolta armada (leia abaixo) do veículo. Segundo líderes sindicais, a prática, embora perigosa, torna-se necessária para completar o baixo salário recebido (veja a tabela). O inicial varia de R$ 1,174 a R$ 1.700.
"Dificilmente é possível sustentar a família com essa quantia. Por isso é necessário colocar a vida em jogo", alegou Fátima de Carvalho, presidente do sindicato andreense. O reforço acaba sendo providencial. Segundo guarda-civil de Mauá, o valor médio pago nos bicos é de R$ 10 por hora. Nos fins de semana, o preço pode ser fechado em R$ 60 por noite. "Ganhamos mais com os trabalhos fora do que com salário", disse.
De todas as cidades, apenas Ribeirão Pires proíbe oficialmente os guardas de exercerem o trabalho extra. Nas demais, não há legislação específica sobre o tema, e as prefeituras alegam não ter como fiscalizar. Por isso, ninguém sofre punição administrativa. A morte do GCM de São Caetano na segunda-feira foi o primeiro caso registrado de óbito de integrante da corporação em trabalho informal nos últimos três anos.
"Não tem como não fazer bico. As prefeituras não têm interesse em aumentar o salário e discutir o assunto. Ou fazem isso ou os guardas morrem de fome", disse Nilton Taveira, representante sindical dos GCMs de São Caetano e Ribeirão Pires.
O poder municipal discorda. O secretário de Segurança Municipal de São Bernardo e líder do GT (Grupo de Trabalho) da área no Consórcio Intermunicipal, Benedito Mariano,, alega que seu município oferece atrativos como plano de carreira. Segundo ele, 740 guardas-civis já foram promovidos desde o início da atual gestão, além de bônus.
As prefeituras destacam os planos de horas extras. Em Mauá, GCMs passaram a ter poder de autuar e fechar bares que descumpram a Lei Seca, além de fiscalizar venda de bebidas alcoólicas na cidade. Os próprios guardas, no entanto, reclamam. "Só 30 homens têm esse privilégio", disse um deles. O grupo chegaria a fazer 200 horas por mês, o que duplicaria o salário. O restante da corporação faz 36 horas mensais a mais.
No dia 26, em Santo André, os sindicatos irão se reunir para tratar de reivindicações comuns às seis GCMs do Grande ABC. A principal delas é pelo reajuste salarial. A proposta inicial é pelo aumento de 30% e a implantação de algo semelhante à Operação Delegada, da Capital, onde policiais militares ganham mais para trabalhar em sua folga fiscalizando ruas. "As prefeituras têm a Polícia Militar como referência, mas se esquecem que falta união dentro das guardas", completou Taveira.
Trabalho extra é questão cultural, diz secretário
O bico é uma questão cultural. Essa é a avaliação do secretário de Segurança Municipal e coordenador do GT (Grupo de Trabalhos) do Consórcio Intermunicipal, Benedito Mariano, sobre a questão do trabalho informal feito por guardas-civis municipais da região. "Até nos Estados onde a Polícia Militar é bem paga, caso do Distrito Federal, eles fazem atividades do tipo", disse.
Segundo ele, a recomendação, no caso de São Bernardo, é evitar atividades consideradas perigosas. "Não pode trazer riscos. Deve-se optar por ambientes fechados, como universidades ou escolas, para se trabalhar como segurança", completou. A única exigência é que o GCM não seja proprietário ou sócio de empresa de segurança privada.
Integrantes da corporação de Santo André contam que atividades consideradas menos perigosas são minoria. "Eu, por exemplo, faço a portaria de uma casa lotérica que já sofreu cinco tentativas de assalto. Em todas precisei atirar para afugentá-los", relatou.
Não há restrições das prefeituras para que os guardas usem sua arma fora do horário de serviço. A maioria já conta com arma particular. Segundo José Vicente da Silva Filho, especialista em segurança pública, é preciso ressaltar que os guardas podem não ser a melhor opção para o bico. "O GCM não tem treinamento de polícia nem tem experiência em lidar com o público em situações de pânico", alerta.
Parentes e amigos se despedem de guarda baleado na Capital
"Adeus, meu herói." Estas foram as palavras de despedida do jovem Mateus, 15 anos, filho do GCM de São Caetano Alberto Rigobello, 33, que foi assassinado segunda-feira enquanto fazia bico como segurança, em Cidade Ademar, na Zona Sul da Capital.
O enterro aconteceu ontem, às 16h, no Cemitério Camilópolis, em Santo André. Cerca de 50 amigos, familiares e colegas de profissão acompanharam o cortejo. Abalados com a fatalidade, os pais e o filho da vítima não quiseram dar entrevista.
Após sete anos trabalhando na corporação, Rigobello estava afastado por motivos de saúde. De acordo com parentes e amigos, ele sofria de problemas no coração. Longe do trabalho, o GCM resolveu ganhar dinheiro de modo informal na Capital.
Rigobello estava no segundo casamento e tinha a guarda do filho Mateus, fruto do primeiro relacionamento. Ele morava na casa dos pais, na Vila Lucinda, em Santo André. "A maior vontade dele era se mudar para a casa própria, que estava construindo sozinho nos fundos do terreno dos pais. Ele estava acabando a obra e moraria lá em breve. Infelizmente, o sonho foi interrompido", relatou Carlos Alberto Tomé, 44, primo da vítima.
O familiar afirmou que Rigobello trabalhava de segurança em São Paulo para poder sustentar o filho. "O Mateus o via como herói. Ele era uma pessoa fantástica. A vida era dedicada ao trabalho e à família", disse. "Hoje em dia é normal um policial fazer bico. O salário é baixo e a maioria precisa de uma renda complementar para ajudar em casa. A criminalidade tirou a vida de mais um trabalhador", completou Tomé. (Cadu Proieti)

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